Os fundos que se financiaram através de programas públicos, por estarem obrigados a aplicar esses fundos num prazo apertado, correm o risco de fazer investimentos sobrevalorizados em projetos sem qualidade, avisa Lurdes Gramaxo, presidente da associação Investors Portugal e sócia do fundo de capital de risco Bynd VC, em entrevista ao Expresso.
As sociedades de capital de risco que se financiaram através de programas como o de venture capital do Banco Português de Fomento devem, de acordo com as regras do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), de onde os fundos provêm, aplicar este capital junto dos beneficiários finais até 31 de dezembro deste ano.
A apertada janela temporal, aliada a outras obrigações que restringem o universo de projetos portugueses nos quais se pode investir, pode gerar distorções de mercado. Os fundos, pressionados a investir, podem acabar por adquirir participações a um preço inflacionado, acima do valor real das empresas.
Lurdes Gramaxo, cujo mandato na liderança da associação de investidores de capital de risco em empresas em fase inicial (early stage) foi renovado por mais três anos, considera que esta “é uma dúvida que existe no mercado”, a de se estes prazos “podem dar azo a situações que não sejam exatamente as melhores”.
A Investors Portugal, fundada em 2022, conta com 300 associados, entre business angels e fundos de venture capital que contam, entre todos, com mais de €6 mil milhões em ativos sob gestão, de acordo com os números da associação. Do leque de associados fazem também parte incubadoras e aceleradoras sediadas em território nacional.
Lurdes Gramaxo concretiza: “Pode haver investimentos superiores aos necessários e haver alguma distorção do mercado. Por isso mesmo, temos falado com os decisores políticos para se fazerem algumas alterações pontuais, permitindo que se prolonguem os tempos de investimento para não se perderem, ou não se consumirem de forma menos vantajosa para a economia, estes montantes”.
MAUS INVESTIMENTOS?
O Programa de Venture Capital do BPF, com uma dotação total de €400 milhões do Fundo de Capitalização e Resiliência do PRR, comparticipa até 70% do montante total dos fundos de capital de risco, que têm de aplicar o dinheiro até 31 de dezembro de 2025.
A pressa é má conselheira. As decisões de investimento, por estarem sujeitas a datas-limite, correm o risco de ser feitas sem a ponderação necessária. Lurdes Gramaxo crê, contudo, que não há falta de bons projetos para investir em Portugal. Muitos têm, até, a versatilidade suficiente para garantir que continuam a fazer negócio e que há alternativas se a ideia original falhar. “Temos cada vez mais dual purpose technologies“, refere, e exemplifica com a indústria dos drones em Portugal, com múltiplos usos, inclusive bélicos.
Outros programas que envolvem dinheiro do Estado, como o SIFIDE (Sistema de Incentivos Fiscais à Investigação e Desenvolvimento Empresarial), também implicam prazos de aplicação do capital angariado. No caso do SIFIDE, as empresas puderam usufruir deste benefício fiscal através da compra de unidades de participação em fundos de capital de risco ou capital privado credenciados para o investimento em empresas da área da inovação científica e tecnológica. Os fundos devem, por seu lado, aplicar esse financiamento num horizonte de cinco anos, prazo alargado pelo Ministério das Finanças em meados de 2024.
Até ao final de 2023 era possível, através da aquisição de unidades de participação em fundos, deduzir em IRC até 82,5% desses montantes. Essa possibilidade, que permitia a aplicação da taxa incremental de 50% sobre a dedução base de 32,5%, terminou para as empresas que investem em fundos.
O forte aumento dos montantes investidos em fundos de capital de risco em 2023 pode ser justificado, de acordo com fontes do mercado, com uma corrida à compra de unidades de participação em fundos de investimento para aproveitar os últimos meses desta forma de beneficiar da dedução em sede de IRC.
PESADA HERANÇA
O sector do capital de risco português arrasta há alguns anos o peso de investimentos feitos numa época de grande confiança no modelo de investimento do capital de risco, em que o capital era barato e abundante. “É difícil hoje em dia investir-se num powerpoint, como há uns anos atrás se fazia. Não era racional. Não me parece, de modo nenhum, que se regresse a esses tempos”, considera Lurdes Gramaxo.
A falta dessa experiência e saber-fazer deu origem a investimentos em projetos de viabilidade duvidosa, com base em tendências passageiras e alicerçados em pressupostos irrealistas. Os efeitos estão aqui ainda entre nós: os fundos têm de fechar e liquidar os seus investimentos e arrastam nos seus balanços participações em empresas inviáveis, muitas delas a funcionar em serviços mínimos: “Um investidor de early-stage não deve ficar muito mais do que no máximo entre 5 e 10 anos da empresa. Isto internacionalmente não acontece, e aqui em Portugal acontece”, frisa. “É preciso criar oportunidades de saída.”
A falta de um mercado secundário em que sejam compradas e vendidas participações em startups, ou a saída dos fundadores das empresas através da aquisição das suas quotas de forma a imprimir novo cunho ao projeto, são dois dos problemas identificados pela líder da Investors Portugal: “Não acontece muito a aquisição, por investidores posteriores, de participações de investidores anteriores nas diferentes rondas. E o que acaba por acontecer é que isso não liberta liquidez para outros investimentos, e acabam por não se tomar as decisões corretas ao longo do processo”.
A falta de dinamismo “tem a ver muito com este legado, com estes primeiros investimentos que foram feitos. E que nós temos que resolver e começar a criar liquidez em operações secundárias e outro tipo de transações, para se depois investir em outros projetos”.
O sector empresarial português, por outro lado, também não comparece à chamada, não se mostrando particularmente interessado em comprar startups, e as soluções que desenvolvem, e integrá-las nas suas estruturas: “Não há tradição ainda em Portugal, e mesmo junto de algumas empresas, ou grupos empresariais, de aquisição de startups que possam fazer sentido para o seu próprio desenvolvimento”, lamenta.
Mas se em Portugal não há compradores, nem capital, já não é o caso lá fora. Se estes projetos não arranjam interessados no vasto mercado global, poder-se-á dizer com mais segurança que são maus investimentos? “Podem ter sido”, arrisca, acrescentando que os investidores “devem assumir” a perda: “fechar, tentar vender, ou entregá-los inclusivamente aos fundadores através de management buyouts [aquisição pelas equipas de gestão], “mesmo a custo muito baixo”.
in Expresso 14 Abril 2025